Fui pra Manaus, de lá pra Rio Branco, depois pra Xapuri, onde me senti em terra firme novamente.
Estive em lugares nunca imaginados antes, na mata, em casa de gente que é muito gente de verdade, no Seringal Cachoeira, Seringal Equador, dentro da Resex Chico Mendes: Seringal Floresta, Seringal Boa Vista. Andei 40 km pra dentro da mata com seus habitantes, fiquei uma semana na margem do rio Espalha, depois andei de volta. Estive em lugares na mata, onde há árvores com mais de 800 anos.
Comi carne de jabuti, veado, paca, tatú, macaco. Comi peixe do igarapé.
Acompanhei um seringueiro cortando seringa das 5 da manhã até as 5 da tarde, dormi todo dia na rede.
Comi arroz, feijão, carne e farinha durante quase um mes. Meu organismo não gostou. Adubei muito a mata.
Estive em Cobija na Bolivia.
Tomei muito açaí. Comi castanha. Fizeram de tudo pra que eu ficasse.
Falaram que quem bebe do rio Acre sempre é obrigado a voltar, acreditei sem pensar duas vezes.
Voltei chamando problema de “pura bucha”, desmatamento de “derribada”, mulher grávida de “buchuda”e barulho de “zuada”.
Quando me espanto digo “má rapaiz!”, ou “ árri égua”. Se vou pra cidade digo ”vô pra rua” e se não vou fazer algo de jeito nenhum, digo logo “não faço é com nojo!”


 Escrito por Ticuia às 10h07
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PARA QUEM NASCEU PÓS 1976



"Prólogo no Céu"

Nuvens brancas diáfanas me envolvem,
Sinto na atmosfera música etérea,
Onde estarei? Que leveza?
Ó, quanta beleza?

Ainda sonho, às vezes, com a minha vida,
Antes do meu nascimento.
Será o céu, um jardim de infância
waldorf?
Seriam os anjos, euritmistas por um
momento?
Isso tudo foi antes do meu nascimento?

"Prólogo na Terra"

Quando nasci,
Um anjo torto e obscuro me
disse:
Vai Ticuia, já que nacestes depois de
1976,
Ser waldorf na vida.
Vai aprender a tocar cantele e flauta
doce,
desenhar com giz de cera quadradinho,
fazer formas euritmicas com túnica,
Enrolar tricô e crochê.

Aprenda a sonhar, sem nunca
pensar,
A ver o sofrimento alheio sem nenhum
tormento,
Be happy my boy... only be happy my
boy...
you are not born 1975 before.

"Prólogo aos 26 anos"

O que que eu vim fazer aqui?
Qual era mesmo meu ideal?
O que que eu vim buscar aqui?
Hoje acordei mal!

A vida até hoje era um Mar de Rosas
Onde está o anjo torto que me
aconselhou?
Onde o be happy falhou?
Sinto-me só, ninguém me entende.
Sinto falta da música
pentatônica,
quando pego na mão a conta telefônica.

Quando acordo, que sofrimento!
Abro olhos e ouvidos, que tormento!
Não tenho paz nem um momento!
Esse mundo é bruto e não tem
sentimento!
Volto à casa de meus pais, buscando
alento!

Vou-me embora pra minha casa,
Lá tenho pai e tenho mãe
Lá serei sustentado e tudo
terei
Minha mesada eu mesmo
estipularei.
Vou-me embora pra minha casa,
Pois nasci depois de 76...


Compadre Quelemém.






 Escrito por Ticuia às 12h44
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there is hope...

O ano de 1976 representou uma ruptura nas tendências que vinham se delineando até então. Foi neste fatídico ano que uma nova onda tomou conta da cena, inaugurando de uma vez por todas a cultura "pop".
Até o ano de 1975 reinava a alternatividade dos anos 60. Usar calça jeans era ser rebelde, tocar guitarra e violão com cabelos longos e despenteados era novidade e o cigarro ainda era aquele de tabaco, enrolado na hora de fumar.
Foi a partir de 1976 que alternativos e rebeldes entraram sem perceber na era do "pop". Jeans de marca, cigarro industrializado de cowboy e fita no cabelo passaram a ser parte da "moda". Os alternativos se tornavam então, sem perceber, seres humanos "modernos".
Das rodinhas de baseado pros parques de diversão foi só um pulo. Os modernos do pós 1976 não vivem, apenas vegetam, pois na passagem do fatídico reveillon de 1975, inalaram o virus espalhado por estrategistas da indústria e do comércio. O virus, sob o nome de consumo, se tornara o novo revolucionário, revolucionando as tendências da moda a cada temporada, os lançamentos de carros e eletrodomésticos a cada ano.
Induzidos à passividade, os alternativos dos anos 60 passaram a criar seus filhos como consumidores da passividade. Do tempo livre organizado na forma de laser, da moda pop e do sonho programado...Estes são os que vegetam.
Porém...a vida vegetal vive lentamente seus ciclos e quando chegar a primavera, ahhhh que surpresa todos terão ao ver brotarem daqueles arbustos adormecidos FLORES LOUCAS E MULTICOLORIDAS, exalando os perfumes dos novos tempos, sem estética programada, sem composição química conhecida, o NOVO não se anunciarea como tal, apenas surgirá inesperado anunciando:

"AQUI ESTAMOS NÓS, QUE NASCEMOS DEPOIS DO ANO DE 1976!!!"


Texto escrito por Ticuia em resposta ao Compadre Quelemem.

 Escrito por Ticuia às 19h32
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