Pra quem nasceu antes de 1976

quando nasci, usei fraldas de pano, presas com alfinete;
e mamei no peito de minha mae.
quando comecei a andar,
cai muito, sem ninguem me segurar.
os primeiros dentes
me despertaram a força do grito
e da resistencia.
aprendi desde cedo a dividir
a cama que dormia,
e as roupas que usava.
disputei os doces guardados
no armario, escondidos,
com meus muitos irmaos.
aprendi a furtar e a dissimular,
sem sentir culpa alguma.
foi questao de sobrevivencia
e, outra vez, de resistencia.

pulei rio sem saber nadar,
arrisquei minha vida
sem saber o que fazia.
joguei futebol,
briguei,
fiz guerra de estilingue,
matei passarinho so para ver
se a morte aparecia.

nunca pensei em bom ou mau comportamento.
recusei tudo que meus pais queriam.
vagabundeei e sonhei,
sem criterio algum,
nao senti culpas nem remorsos:
o que e isso?

meus filhos nasceram,
e eu nem sabia o que era
dinheiro, poupança, economia,
segurança, saude, pedagogia.
brinquei com eles como criança,
passei apertos e sufocos,
nunca desesperancei.
fui sensato,
sem nem saber.

recusei empregos
que me dariam segurança,
por gostar da insegurança;
para mim ela se chama: liberdade!
vou e venho, tendo
compromisso so comigo mesmo.
sera isso politicamente correto?
nunca pensei nisso.
de nada tenho medo,
nada desejo,
faço qualquer trabalho,
nao conheço diferenças de raças,
classe social,
nem ricos, nem pobres,
nem inteligentes,
nem carentes, nem nada classificado:
so vejo pessoas a minha volta.

se voce,
que me le,
nasceu depois de 1975,
nao vive,
apenas passa pela vida,
resmungando e reclamando
o politico-eco-pedagogico-economico-correto.
voce pensa sobre a vida,
sem vive-la.
(escrito por Compadre Quelemem no ano de 2004 )

 Escrito por Ticuia às 14h40
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Pensamentos de Josué!

Em nenhuma outra fase da história da humanidade foram tão tensas as relações entre os homens. As tensões sociais, os conflitos ideológicos, as competições econômicas e as fricções políticas entre grupos, classes e países atingiram nos nossos dias uma tremenda intensidade, ameaçando de forma inquietadora a paz, a tranquilidade e a própria sobrevivência da civilização. Mas, se por um lado, nunca foi tão difícil a convivência do homem com o próprio homem, por outro lado nunca alguns homens se esforçaram tanto para vencer estas forças desagregadoras - estes conflitos e divergências - no interesse supremo da humanidade. Por toda parte vemos homens de boa-vontade que se empenham com obstinada energia da tarefa ingente de criar no nosso mundo um clima de melhor entendimento - de compreensão e de tolerância - no qual possa germinar e frutificar a verdadeira paz entre os homens. (escrito em 1955 por Josué de Castro em "Ensaios de Biologia Social")

 Escrito por Ticuia às 13h42
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Nem tudo é natural.

Se não houver, por exemplo, uma parte da sociedade totalmente desprovida de meios próprios para produzir a sua vida, o trabalho assalariado não existe e sem ele o capital não tem sentido...E esse processo de expropriação do trabalhador da terra e de seus outros instrumentos e meios de produção não foi econômico. Ele se deu através da vilência, com muito sangue, suor e lágrimas. Isso quer dizer que para a economia funcionar sob a forma capitalista pressupõe, não só na origem mas no dia-a-dia, mecanismos extra-econômicos dos quais lança mão para garantir que o trabalhador venda a sua capacidade de trabalho.
Talvez uma história Acontecida no século passado sirva para esclarecer o caráter social da economia: um empresário inglês, de nome Peel, resolveu se transferir para a Austrália. Levou consigo dinheiro e inúmeras familias sob seu patrocinio para migrarem. Deste modo, tinha o dinheiro, os trabalhadores e, na Austrália, recursos naturais em abundância. Todavia, aquelas familias que haviam sido expropriadas da terra na Grã-Bretanha, uma vez chegadas à Austrália resolveram se apropriar das terras ali disponíveis. Peel ficou com seu dinheiro sem se valorizar, pois havia esquecido de levar para lá um juíz para decretar que a terra era propriedade privada e, assim, aquelas familias ficarem privadas de as utilizar; a polícia para prender quem desobedecesse à Lei; um padre para dizer que aquilo era sagrado e o professor para dizer que tudo aquilo era natural.
Como nada disso foi instituído por Peel, o capitalismo teve de esperar mais alguns anos para se implantar com tudo isso que é necessário para sua existência.

de Carlos Walter P. Gonçalves em "Os (Des)caminhos do Meio Ambiente".

 Escrito por Ticuia às 16h10
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